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Narciso e Eco

"Uma ninfa bela e graciosa tão jovem quanto Narciso,chamada Eco e que amava o rapaz em vão. A beleza de Narciso era tão incomparável que ele pensava que era semelhante a um deus, comparável à beleza de Dionísio e Apolo. Como resultado disso, Narciso rejeitou a afeição de Eco até que esta, desesperada, definhou, deixando apenas um sussurro débil e melancólico. Para dar uma lição ao rapaz frívolo, a deusa Némesis condenou Narciso a apaixonar-se pelo seu próprio reflexo na lagoa de Eco. Encantado pela sua própriabeleza, Narciso deitou-se no banco do rio e definhou, olhando-se na água e se embelezando. As ninfas construíram-lhe uma pira, mas quando foram buscar o corpo, apenas encontraram uma flor no seu lugar: o narciso. “







Por : Lázaro Freire


Vivemos um grande "neo-narcisismo pós-hedonista".



O antigo culto ao corpo implicava, pelo menos, melhorar o que se tem. Agora, o próprio corpo tornou-se um produto a ser adquirido - cabelos, seios, cinturas - para ingressarmos no mercado do "amor". Nele, bons investidores conseguem adoração, independência financeira ou substituto de auto-estima até a próxima estação de neo-prostituição. Se o amor é mercado, preciso ser bem de consumo, moeda de troca, e a embalagem é fundamental.
Fico imaginando como serão os cemitérios do futuro. Precisarão ter caixinhas de restos mortais maiores, para acomodar as bolsinhas de silicone da bunda e peitos da titia que "desencascou".
Ainda bem que silicone é inflamável: Com um pouco de fogos de artifício, poderemos vir a ter rituais pirotécnicos nas futuras cremações. Mas isso se houver família para administrar restos mortais.



23 de maio de 2010

Narcisico


 http://germinaliteratura.com.br/imagens/veronica_peixoto1.jpg
                                                 imagens©rodin by verônica peixoto


"Narciso se aproximou de um lago tão calmo e tão límpido que,
ao curvar-se sobre as águas para beber, se deparou com sua imagem refletida
e, ficou pasmo diante de tanta beleza. O rosto que via parecia talhado em mármore
e assemelhava-se à escultura de um deus. O pescoço esguio, parecia
trabalhado em marfim. A princípio não se deu conta de que aquela
era a sua própria imagem. Nunca tinha se visto, como poderia se "re-conhecer"
de imediato? Mas tão apaixonado ficou que tentou tocar aquele rosto, fosse
de quem fosse e, qual não foi sua surpresa quando percebeu que seus movimentos
se repetiam também nas águas! Só então concluiu que
aquele era o seu rosto, tão maravilhoso que não conseguiu mais tirar
os olhos de seu reflexo e morreu ali mesmo, de inanição, sem conseguir
afastar os olhos da própria imagem.
Quando, depois de sua morte, amigos foram procurá-lo, só encontraram
à beira do lago uma flor de pétalas brancas e miolo amarelo, muito
delicada, de rara beleza e de um perfume inebriante, a que deram o nome de narciso.
Ficaram depois sabendo que, até no Hades (mundo subterrâneo para
onde vão as almas dos mortos), ainda hoje ele procura ver seu reflexo nas
águas escuras do rio Estige."




Esta é uma história triste e tão antiga que ao lembrar dela 
nos parece uma bobagem qualquer, dessas que se conta às crianças, 
com o intuito de dizer a elas: não seja egoísta, ego-centrado, não 
pense que é só você que existe no mundo, nem tão presunçoso, 
não faça pouco das pessoas...
Só que mitos não são bobagens e, por mais que tentemos passar 
ao largo e dizer: "Já estou cansado de saber a moral desta história 
..." , não é bem assim.
Temos muitas coisas a pensar e rever neste mito de um Narciso que está 
vivo e atuante em cada um de nós, respeitáveis cidadãos do 
mundo em pleno século XXI.
Parte da palavra Nárkissos que é o nome de Narciso em grego, vem 
de "nárke" que significa entorpecimento, torpor. É desta 
raiz que se origina, também, a palavra narcótico (entorpecente).
Junito Brandão em sua obra "Mitologia Grega" assim se coloca 
a respeito deste assunto: "...nárke como fonte de narcose (sono 
produzido por meio de narcótico), ajuda a compreender a relação 
da flor narciso com as divindades ctônias e com as cerimônias de iniciação... 
Narcisos plantados sobre os túmulos, o que era um hábito, simbolizavam 
o sorvedouro da morte, mas de uma morte que era apenas um sono... Uma vez que 
o narciso floresce na primavera, em lugares úmidos, ele se prende à 
simbólica das águas e do ritmo das estações e, por 
conseguinte, da fecundidade, o que caracteriza sua ambivalência morte-(sono)-renascimento."
Mas, afinal qual é a simbologia deste mito, além daquelas já, 
exaustivamente, debatidas? Quem é Narciso? 
É alguém que se apaixona pela própria imagem. 
E nós, quem somos? Muito se tem falado a respeito do quanto devemos nos 
amar, até para que possamos amar ao outro... Mas não é aí 
também que quero chegar. Quero antes falar das semelhanças entre 
os reflexos e as sombras. Para tanto, volto a recorrer a J. Brandão.
" O desenlace trágico... acima transcrito, é a conscientização 
de Narciso de que está perdidamente apaixonado por sua própria imagem; 
de que sua paixão é um auto-amor, um amor do 'self' e não 
um amor pelo 'outro'.Tal descoberta leva-o ao desespero e à morte, por 
uma reflexão 'patológica'. 'Reflectere', de 're', novamente e 'flectere', 
curvar-se, significa etimologicamente, voltar para trás, donde 'reflexus', 
reflexo, retorno, e 'reflexio', - 'onis' , inclinação para trás. 
Jung acentuou bem o que ele compreende por reflexão: 'O termo reflexão 
não deve ser entendido como simples ato de pensar, mas como uma atitude.... 
Como bem indica a palavra reflexio, isto é, inclinação para 
trás, (...) isto é, um deter-se, procurar lembrar-se do que foi 
visto, colocar-se em relação a um confronto com aquilo que acaba 
de ser presenciado. A reflexão, por conseguinte deve ser entendida como 
uma tomada de consciência.
Mas a reflexão, como a de Narciso, pode representar sério perigo... 
(porque sua) história fala de um desenvolvimento patológico, exatamente 
isto que Jung chamou de instinto de reflexão. Jung atribui a esse instinto 
a possibilidade da riqueza e da complexidade psicológica. Trata-se de um 
instinto estritamente humano e, sem ele, a cultura e a interioridade psíquica 
seriam inconcebíveis. Mas, como Jung frisa, cada instinto ( ele numera 
cinco) tem um potencial de expressão patológica. A patologia é 
indicada, geralmente, quando um dos cinco instintos começa a dominar o 
resto e a restringir sua progressão para a satisfação. Narciso 
indicaria este desenvolvimento patológico no instinto de reflexão: 
a atividade da reflexão (voltar-se para si mesmo) domina e exclui a necessidade 
de alimentação, de sexualidade comum, da atividade da entrada de 
qualquer pensamento ou impulso novos.
O que o jovem... ama é sua 'reflexão' que, como já foi visto, 
anteriormente, é sua 'umbra', sua alma-sombra. Sob (esta) influência 
'ama-se o que se auto-reflete e, reflete-se o que se ama'...
O perigo que oferece o aprofundar-se em demasia na linha narcísica de alma 
e amor-reflexão está não somente na auto-contenção, 
no solipcismo, no incesto intrapsíquico, mas também no suicídio. 
De modo explícito, ao se recusar comer, Narciso se suicidou." 
Agora que J. Brandão nos esclareceu a respeito dos reflexos eu gostaria 
que "refletíssemos" juntos a respeito do que têm em comum 
os reflexos e as sombras.
Ambos nos espelham de alguma maneira. Ambos acompanham nossos movimentos, definem 
nossos contornos e nossos limites. Ambos para se apresentarem dependem da luz. 
Só que os reflexos nos dão uma aparência mais nítida, 
por isso, talvez gostemos mais deles. Além do que, em todas as culturas, 
desde os tempos mais remotos, existem várias associações 
não muito agradáveis no que diz respeito à sombra...Até 
mesmo as "assombrações" têm a ver com ela. Assombrações 
com vários sentidos,conforme veremos...
Na teoria Junguiana, a sombra representa tudo aquilo que não conhecemos 
de nós, mas que podemos ainda vir a conhecer, tais como potencialidades 
das quais ainda não tivemos consciência ou, se tivemos pode não 
ter havido oportunidade para desenvolve-las e, desta forma, elas ainda se encontram 
lá, na obscuridade da nossa sombra. Fazem parte de nossa Sombra também, 
tudo aquilo que mais detestamos em nós e que, conhecemos sim, mas desejaríamos 
não ter conhecido jamais e, procuramos esquecer e reprimir da maneira mais 
eficiente possível. Então, para negar que aquilo nos pertence o 
projetamos no outro.
Assim, ao refletirmos no Narciso que vive em nós, nos confrontamos com 
uma situação um tanto sombria.
O século XX foi considerado o século das migrações. 
Em todo o planeta, via-se massas incalculáveis de pessoas caminhando a 
esmo de fronteira em fronteira, buscando asilo, fugindo de guerras étnicas. 
E, o que vem a ser uma guerra étnica? O quê, precisamente, mobiliza 
parte de uma nação a querer massacrar a outra parte dessa mesma 
nação, seus vizinhos com quem, em muitos casos conviveram por anos 
a fio?
A busca do reflexo e o medo da sombra, do diferente, do desconhecido, do que nos 
incomoda e não queremos ver nem mesmo no "outro". 
Quando estou no aconchego de família, em que todos falam a minha língua, 
é tão reconfortante...Sinto-me compreendido e amado, até 
mesmo admirado, reconhecido pelo que sou, pelo que estou me tornando, pelos projetos 
que tenho... E, eu preciso desta "re-validação", deste 
"re-conhecimento" de que valho alguma coisa, de que sou importante para 
alguém...E me sinto muito orgulhoso com a sensação de "pertencer"...de 
fazer parte de algo que prezo tanto.
É. Continuamos como Narcisos procurando e nos apaixonando por nossos reflexos, 
por nossos "semelhantes", por nossos iguais, e assim nos encontramos 
em pleno século XXI, no novo milênio, apedrejando, escorraçando 
e matando aqueles que não tem a nossa cor, os nossos costumes, a nossa 
raça, que não possuem nosso sangue ou, quem sabe, nosso nível 
cultural ou ainda, nosso poder econômico e principalmente, nossas convicções 
políticas e religiosas, isto é, nossos valores.
Indo atrás de nossos "reflexos" , tais como Narciso, nos suicidamos 
em guerras e ampliamos cada vez mais a nossa Sombra . Entorpecemos nossos sentidos 
e perpetuamos a "hamartía" de Narciso ( erro fatal que leva à 
tragédia, sempre por ignorância).
Mas, será que é mesmo um pecado tão grande querer estar em 
comunhão com nossos pares, nossos iguais?
Não, quando o olhar não se enrijece. Não, quando há 
uma abertura dos cinco sentidos que se amplia no espaço, quando há 
lugar na minha casa e no mundo para o diferente, o oposto, o não-eu .
Talvez nem tudo esteja perdido porque o mito de Narciso falava que ele era proveniente 
das águas e estas simbolizam a fecundidade, a morte simbólica do 
sono que sonha com um "re-nascimento". A simbologia das águas 
fala do Eterno Retorno Cíclico. Então, se mais uma vez recorrermos 
à teoria Junguiana, ela nos fala da evolução em espirais, 
onde o retorno pode ser em uma oitava acima.
Quem sabe possamos renascer para a evolução de um mundo melhor?
Mas para haver evolução é preciso que haja reflexão, 
tomada de consciência no plano individual, familiar, social, humano, planetário.
Narciso sempre viverá em cada um de nós, mas podemos vivenciá-lo 
sem a patologia da "hýbris".
Poderemos, (quem sabe?), neste novo milênio que com tanta alegria acabamos 
de entrar, trazer à luz da consciência mais um bocado da nossa Sombra, 
tentando lidar com as diferenças e nossos conflitos e ambivalências 
em relação a elas.


Por :Zidnah Debieux.
Psicóloga clínica de linha Junguiana.

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